Mais uma tentativa de ressuscitar este blog. Se bem que ele nunca esteve vivo de fato. Então, trata-se de uma tentativa de recomeçá-lo. Não importa: o fato é que apaguei o que já tinha escrito, porque é impossível ler algo que você escreveu há anos e não se sentir envergonhado. Comecemos do zero (e para o nada; não estou muito seguro de que alguém esteja interessado no que vem a seguir, e isso também pouco importa). Segue o barco, deixando as lamentações de lado, sem maiores explicações.
Há pouco, fui ver "Na estrada" (On the road), de Walter Salles e fiquei com vontade de escrever algumas linhas a respeito. Sei que não é muito bom escrever algo sobre o filme no calor do momento, porque com certeza vou cometer algumas injustiças; mas essa é a graça da coisa e, de qualquer forma, as coisas injustas são muito mais legais. Enfim, o filme me fez pensar em algumas coisas que quero dividir.
A começar pelo cinema em si, que, em 2012, ao contrário dos anos anteriores, começou promissor, com alguns títulos muito interessantes, mas perdeu o fôlego e está se revelando bastante decepcionante. Explico: até mesmo o Oscar, que ultimamente vinha com listas de filmes intragáveis (com algumas exceções, claro), esse ano trouxe títulos bem consistentes, na minha opinião. Filmes como o Hugo Cabret do Scorsese, A árvore da vida e Os descendentes, para ficar em poucos exemplos, são realmente muito bons, e a lista, com poucas exceções, era de alto nível. Foi um começo animador, e ainda acho que 2012 tem sido muito menos tenebroso do que os anos anteriores. Porém, os filmes que eu mais aguardava se revelaram um tanto decepcionantes. Os títulos que eu considerava "quentes" este ano deixaram a desejar. Para dar uns exemplos, teve o Sombras da noite, que não achei ruim, mas revelou um Tim Burton meio que no piloto automático, e agora este On the road, do qual se dizem maravilhas, tanto do filme quanto do livro; e é sobre On the road que quero falar, porque acho que ele reflete muito do que sinto sobre a produção cinematográfica atual.
Esse filme do Walter Salles é impecável do ponto de vista técnico. É de encher os olhos, do primeiro ao último fotograma. Sam Riley e Garret Hedlund são grandes atores e foram muito bem dirigidos. Kristen Stewart é muito boa também. Ainda temos Kirsten Dunst, Amy Adams, Viggo Mortensen e Steve Buscemi, todos ótimos. A fotografia é uma beleza. As cenas mais fortes não são filmadas com o pudor típico do cinema mais comercial, o que é um alívio. Mas o que faz um filme desses não decolar? Não sei dizer ao certo, mas algumas coisas me vieram à mente durante a projeção. A primeira delas é o material no qual o filme se baseia: o livro de Jack Kerouac talvez não seja algo muito propício a ser filmado. Só que isso não tenho como afirmar porque não li o livro, mas até hoje poucos se meteram a filmar os textos desses caras da tal geração Beatnik, e não deve ser à toa. Sobre esse assunto, só tenho como fazer essa suposição não muito segura, então vou me ater ao filme.
O roteiro parece se arrastar e as situações lá pelas tantas acabam ficando um tanto repetitivas. Claro que muitos não vão achar isso e talvez esse nem seja o grande problema de On the road. Acho que o problema é outro, e é um problema comum aos chamados "filmes de arte" recentes, aos filmes de festivais. Os "filmes de estrada", que é o que On the road tenta ser, estão na minha memória como obras meio tortas, com situações que parecem meio que improvisadas e que acabam se revelando poéticas. Não é o que vemos aqui. No filme de Walter Salles se tenta ser poético a todo custo, se atira para todo lado claramente com essa intenção. O rigor formal do filme (que é justamente o problema que atribuo aos ditos "filmes de arte" atuais) atrapalha, e muito. Somos soterrados pela beleza estética do filme e prestamos mais atenção aos planos milimetricamente pensados, de tanto que estes chamam a atenção para si mesmos. E isso nos faz perder o interesse nas angústias de Sal, Dean e Marylou, que creio que deveria ser o que há de mais forte em On the road. Os filmes de estrada costumam deixar o espectador se sentindo sujo como seus personagens, totalmente identificados com eles. Durante a sessão, imaginei Walter Salles filmando On the road num terno indefectível, tamanha a elegância dos planos. Enquanto isso, o espectador passa ileso por tudo que é mostrado na tela. E, no meu caso, com uma amarga sensação de indiferença.
Apesar de tudo isso, vejam o filme e discutam comigo. Gosto da discordância. Já estou me preparando para as primeiras pedradas.
quinta-feira, 19 de julho de 2012
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